As últimas eleições legislativas foram as mais caras de sempre em Portugal em matéria de financiamento partidário, já que os partidos vão receber perto de 18 milhões de euros anuais em função dos votos conquistados, mais três milhões do que em 2005, revela a Lusa.
Em virtude da Lei de Financiamento dos Partidos e das Campanhas Eleitorais, os partidos receberão, anualmente, e por cada voto conquistado, o equivalente à fracção 1/135 do salário mínimo nacional, ou seja, no ano em curso, 3,33 euros, parte do total de 450 euros de salário mínimo actual em Portugal.
O PS receberá anualmente 6,88 milhões de euros pelos votos conquistados, recolhendo o PSD 5,48 milhões. Já o CDS-PP e o BE aproximam-se da fasquia dos dois milhões de euros, enquanto que a coligação PCP-PEV receberá perto de 1,5 milhões de euros.
Horas após Paulo Portas conseguir uma vitória histórica do CDS/PP nas legislativas, a investigação sobre o processo de aquisição dos dois submarinos U-214 em 2004 volta à tona de água. Segundo o Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, as buscas de ontem em escritórios de advogados «visam dar espectáculo, aliás estavam lá jornalistas à espera. (…) Isto é terrorismo judiciário.»
No rescaldo das Eleições Legislativas, nada de novo: Todos ganharam!
Ganhou o PS, com o Primeiro-Ministro mais suspeito de ser suspeito nesta III República, campeã da corrupção.
Ganhou o PSD a reforma tardia da velha senhora e a luta por mais um líder.
Ganhou o CDS, embora Portas tenha que adiar a candidatura a mais uma medalha no Pentágono, por serviços prestados ao Império.
Ganhou o Bloco de Esquerda, embora a caracterização dos trotskistas reciclados seja superficial.
Ganhou o PCP, porque estes desempregados do defunto Império Soviético, sem direito a subsídio de desemprego, tanto ganham no passo à frente como no passo atrás.
Dos restantes partidos, convencidos que estão de que disputam eleições, nem vale a pena falar. Deixemo-los imersos nos seus sonhos.
O Sistema está fechado e bem fechado. Não admite reformas nem aceita novos protagonistas. O controlo da comunicação social é o selo dessa garantia e o aparelho da justiça, igualmente dominado, nunca permitirá uma operação “mãos limpas”. A História ensina-nos que em Portugal a mudança de regime só é possível por ruptura.
Todos ganharam, mas o novo governo vai ser ainda mais frágil num contexto de agravamento das dificuldades, que se irá sentir logo que o circo eleitoral termine. Não é previsível que este governo termine a legislatura e todos os que investiram esperanças em Cavaco irão conhecer a moleza da criatura.
Todos ganharam, mas Portugal perdeu, mais uma vez.
A classe política, e os portugueses em geral, têm-se ocupado a discutir a solução governativa a partir de Outubro próximo. Com todo o respeito, parece-me um devaneio primaveril. Um país que deve ao exterior mais de 100% do seu PIB anual (sim, caro leitor, cerca de 20.000 euros cada um de nós, ainda que por interpostas pessoas), e se endivida à razão de dois milhões de euros por hora (10% do PIB anual), pode até escolher Governo (os executantes) mas já não tem escolha de políticas.
Eu sei, como o leitor, que há uma única solução condigna: produzir mais e exportar mais. Só que já não há tempo para essa solução e, nos tempos mais próximos, já não há alternativa a gastar bastante menos (nós todos, Estado, empresas e famílias). Infelizmente. Podemos até fingir que nos esquecemos desta dura realidade. Não importa. Lá para Novembro, quando começar a aproximar-se o Inverno, os credores imporão, primeiro a política e, se necessário, os próprios executantes. E quanto mais ‘marialvas’ nos mostrarmos, mais depressa nos obrigarão a gastar menos.
O FMI tratou do assunto em 1977 (Governo PS-CDS) e em 1983 (Governo de Bloco Central). Em 2010, os credores far-se-ão representar pela Comissão Europeia. Votemos, entretanto.